domingo, 19 de novembro de 2017

É rápido como uma sombra, curto com um sonho
Breve como um relâmpago na noite fria
Que com melancolia revela tanto o céu quanto a terra
E antes que o homem consiga dizer "Veja!"
Os dentes da noite o devoram.
E assim, depressa, tudo o que é luminoso
Desaparece em meio à perplexidade

William Shakespeare
Dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca.
Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.

Onde a verdade e onde a mentira dos sentimentos? Seria a bela Capitu, com seus olhos de cigana oblíqua e dissimulada, uma adúltera? Teria fundamento o ciúme que corrói a alma de Bentinho?

Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação.

Machado de Assis

Pertencer

Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos. 
 

É bom que as pessoas comecem a se preparar para o fim do mundo,

Todo ano começam a pipocar na internet algumas teorias de que o mundo vai acabar no dia X ou na data Y. Todo ano é a mesma história. E no final das contas, tudo continua igual. O mundo não acaba e quem acreditou na teoria e saiu por aí fazendo besteiras, com a desculpa de que o mundo iria acabar, se deu muito mal.

 Na maioria das vezes, essas previsões de apocalipse saem da boca de algum astrólogo, vidente e pessoas dessas categorias. Mas, como já dissemos, ninguém nunca acertou.

Mas agora, a coisa pode mudar de figura. Isso porque, uma teoria de fim de mundo foi criada por ninguém menos do que o maior físico e cosmólogo de todos os tempos, Stephen Hawking.

Em sua nova teoria, o físico apontou em uma conferência de que é melhor a gente começar a preparar nossas futuras gerações, para que elas corram para começar a popular outros planetas. O motivo é que, segundo Hawking, o planeta Terra irá se transformar em uma bola de fogo, daqui 600 anos.

Pode parecer uma data longínqua, visto que nenhum de nós estará vivo até lá. Porém, quando levada em consideração a idade da Terra, 600 anos não é nada.

Ainda de acordo com o físico, a população da Terra terá que fugir disso e ir para outro lugar no universo. Hawking ainda afirmou que a melhor opção é Alpha Centauri, que é o sistema estelar mais próximo da Terra. Ela fica a uma distância de 4,37 anos-luz.

Stephen, que atualmente ocupa o posto que um dia foi de Isaac Newton, na Universidade de Cambridge, convocou investidores do mundo todo para começarem a injetar dinheiro em projetos que viabilizem esse tipo de viagem.

 De acordo com o físico, entre os motivos para o fim da Terra estão o crescimento populacional e a incessante demanda por combustível e energia. 

Fonte 
Hypeness
 
A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença,
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Augusto dos Anjos
O dinheiro é uma felicidade humana abstrata; por isso aquele que já não é capaz de apreciar a verdadeira felicidade humana, dedica-se completamente a ele.

Arthur Schopenhauer

sábado, 18 de novembro de 2017

Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata
......
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Carlos Drummond de Andrade

Versículos do dia

Os teus votos estão sobre mim, ó Deus; eu te renderei ações de graças; Salmos 56:12

No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor. 1 João 4:18
Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.

Fernando Pessoa

Iate, ilha em Angra e apartamento de Joesley em NY estão à venda

Joesley Batista decidiu botar à venda alguns de seus bens — é o feirão do Joesley.

Entre eles, o já célebre apartamento de Nova York, na rua 53, defronte ao MoMA.

Interessado? São 685 m² quadrados e cinco quartos. Está avaliado em R$ 45 milhões, mas como o dono está necessitado, deve dar para comprar com um desconto…

Também estão à venda o iate, batizado de “Why not”, de 30 metros de comprimento, e sua ilha em Angra, comprada em 2013 e inaugurada com um show de Bruno e Marrone.

Valem uns R$ 10 milhões e R$ 25 milhões, respectivamente.
 
 Lauro Jardim - O Globo


O miniconto

Que tamanho deve ter um conto?   Os critérios editoriais definem a extensão de um texto pelo número de palavras. (Como ponto de referência, este artigo tem exatamente 979 palavras).

O mercado literário norte-americano, mais industrializado e preciso do que o nosso, define quatro faixas de extensão:

Conto (“short story”), até 7.500 palavras
Noveleta (“novelette”), entre 7.500 e 17.500 palavras
Novela (“novella”), entre 17.500 e 40 mil palavras
Romance (“novel”), de 40 mil palavras em diante

Dica: não tentem achar uma equivalência entre os termos ingleses e os termos cognatos em português (novela, romance). Usamos palavras parecidas para falar de coisas diferentes.

Edgar Allan Poe definiu o conto, de maneira pragmática e intuitiva, como uma "narrativa curta, cuja leitura atenta requer de meia-hora a uma ou duas horas." 

Poe tinha em vista o que ele chamava de unidade de efeito.  O conto deveria ser curto para não ser interrompido.  Deveria ser uma experiência mental única, contínua, do começo até o fim, para que não se diluíssem as tensões, e o desfecho tivesse toda a carga emocional preparada pelo autor. 

Curiosamente, a duração que ele preconizava para o conto é aproximadamente a que tem um filme de longa-metragem no cinema comercial.  E qualquer espectador de cinema mais exigente sabe que a experiência de ver um filme na TV “quebra o efeito”, por causa dos intervalos comerciais.  Tanto um conto quanto um filme devem ser, idealmente, uma experiência mental ininterrupta.

Isto se torna mais fácil quando praticamos o que chamamos de “miniconto” (“short-short story”).  Para este não há um limite específico, mas em geral podemos considerar como minicontos aqueles de duas páginas ou menos.  Algumas experiências vão mais além.  Revistas literárias de língua inglesa promovem de vez em quando concursos para contos com apenas seis palavras.  O modelo para isto é um texto famoso atribuído a Ernest Hemingway, que diz: "For sale: baby shoes, never worn" (“Vende-se: sapatos de bebê, sem uso”).  Há toda uma história de tragédia familiar por trás deste minitexto. 

O miniconto procura sugerir, já que não pode descrever ou narrar muita coisa.  Em oficinas literárias ou de roteiro, vez por outra os alunos recebem esta tarefa: “Conte sua história em uma frase. Depois, em dez linhas. Depois, em trinta linhas; depois em 200 linhas”. 

Quem for capaz de manter a precisão e a coerência ao longo destas etapas provavelmente será capaz de escrever um roteiro de 120 páginas.  

A concisão é uma virtude em declínio nesta época do mundo eletrônico e seu espaço aparentemente sem limites.  Antigamente, escrevíamos pensando no número de toques por linha (eram 70) e no número de linhas por lauda (eram 30).  Compactar qualquer história em seis palavras nos traz de volta um pouco dessa antiga disciplina.

A revista Wired promoveu certa vez um concurso de contos fantásticos e de ficção científica em seis palavras.  Uma tarefa difícil, uma vez que é preciso sugerir, além de uma história, uma ambientação com a qual o leitor, a princípio, não tem familiaridade.  Mesmo assim, houve tentativas bem sucedidas.  Como esta, de Eileen Gunn: “Computador?  Trouxemos baterias?  Alô!  Computador?  Computador?…”  Não precisa mais nada para imaginarmos uma nave silenciosamente à deriva no espaço, cheia de astronautas congelados. 

Gregory Maguire propôs: “Nos arranha-céus calcinados, homens criaram asas”.  É um cenário pós-catástrofe, que lembra os quadrinhos de super-heróis.  Viagens no tempo são um caminho interessante para estas narrativas super-rápidas.  Harry Harrison propõe esta hipótese: “MÁQUINA CHEGA AO FUTURO.  Ninguém lá...”  Um recurso mais operacional, meio clichê dentro do gênero, mas eficaz nas curtas dimensões do miniconto, é a historieta de Alan Moore: “Tempo. Sem querer, inventei máquina do.”  E tem a humorística hipótese de David Brin: “Dinossauros retornam.  Querem petróleo de volta”.

O interessante nestas experiências é o fato de que o autor conta com a imaginação do leitor, sua capacidade de recorrer a um banco-de-dados comum para preencher as lacunas, as partes não explicadas (não dá para explicar muito em seis palavras). 

As seis palavras funcionam como um cartum, criando uma unidade de sentido que se percebe de um só relance, sem precisar ficar esmiuçando “comos” e “por quês”.  São como um título de livro ou uma manchete de jornal: exigem que a gente seja capaz de “já saber” e também de imaginar.

Outra publicação, a revista online Smith, lançou para seus leitores um desafio parecido: contar em seis palavras a própria vida.  As respostas foram muitas e variadas.  O quesito verossimilhança ficou um pouco fora de questão, pois os editores não poderiam checar se o que cada colaborador afirmava de si próprio era verdade ou não – mas isto é o que menos importa.  Algumas sínteses foram cronológicas e bem-humoradas, como a de Dick Hadfield: “Feto, filho, irmão, marido, pai, vegetal”.  Outras foram visualmente eficazes: “Cabeça entre livros, pés sobre flores” (Heather Thomson).  Outras foram pessimistas até a medula, como a auto-avaliação de Patsy Wheatcroft: “Época errada.  Classe errada.  Sexo errado”.   Outras otimistas, como a de Peter Elvish: “Companheira fiel, amor, risadas... e agora?” 

Tem uma que dá um calafrio incômodo: “Quatro casamentos, três filhos, depois câncer” (Gillian Johnson).   E outra com um sabor de volta-por-cima: “Atropelada duas vezes, felizmente ainda viva” (Trudi Evans).  Steve MacMullen impressiona pela sobriedade e ausência de ambição: “Desposei namorada de infância.  Filhos. Contente”.

Na verdade não se trata de esperar dos colaboradores uma pequena façanha literária, apenas um poder de síntese satisfatório.  Um tal de Patric se resume: “Nasci londrino, vivi fora, morri dentro” (no original: “Born London, lived elsewhere, died inside”).  Jane Kirk demonstra bom humor: “Príncipe no cavalo branco nunca apareceu”.  

O desabusado C. North afirma: “Nenhuma nota dez, mas virei milionário”.   O esperançoso Sunny Tailor pergunta: “Alguma chance de começar de novo?”  E John Ball confessa com resignação: “Trabalhei toda vida, ainda pago impostos”.    E Alexandra Lackey diz: “Nada de romance tipo Jane Austen”

Mas há um grande romance latente em cada meia-dúzia de palavras, desde que bem escolhidas.

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

(Uma versão diferente deste artigo foi publicada na revista Língua Portuguesa, da Editora Segmento, São Paulo, em julho de 2009)


Lidando com a morte

Quando menino eu conheci uma amiga de minha mãe, daquelas solteironas do Miramar, que se dizia muito nervosa porque ficara no caritó. No bairro ninguém permitia que ela fosse aos velórios e enterros porque ao invés de chorar danava-se a dar risadas quando se aproximava do defunto.

Essas reações à morte são incríveis.

Mesmo as reações à ameaça de morte já são perigosas. O cidadão acabara de receber um péssimo diagnostico do médico. Encontrou um amigo e, muito deprimido, esperando uma força, confessou: “- Mas meu amigo, não lhe conto. Sai agorinha do médico e ele me deu seis meses de vida. O que você acha? ”. O amigo arregalou os olhos, balançou com força o seu ombro e disse: “- Pois corra, aproveite que seis meses para quem está morrendo passam em menos de uma semana”.

Já outro foi diagnosticado com um câncer e recebeu a visita do irmão ainda no hospital. “- Mano velho, eu que nem câncer tenho já estou lascado, avalie você que não deve ter nem três meses de vida”.

Seu Durval era meio assim...abilolado, e foi consultar um médico muito bom mas rude, beirando o estupido. Ao ser diagnosticado com pneumonia, quis duvidar. “- Mas Doutor, será que é mesmo pneumonia? Olha que eu tinha um amigo que foi diagnosticado com pneumonia mas morreu de outra doença”. O médico já aborrecido pela dúvida posta em seu diagnóstico, rebateu: “- Pois aqui é garantido, seu Durval. O senhor vai morrer mesmo de pneumonia, viu? Mas era só o que faltava...”.

Isso de morrer vai aos extremos do absurdo. Nerivan é testemunha de um estranhíssimo diálogo entre dois pinguços que frequentam o bar “Lavagem do rato”, no distrito mecânico. Um deles disse ao outro que o amigo comum Antônio havia morrido na porta do bar. O outro perguntou se ao morrer Antônio estava chegando ou saindo do bar. Quando foi informado que Antônio morreu quando entrava no bar, desabafou: “- Que azar, hem?”.

A mistura de bebinhos e mortos nunca deu certo. Zenildo conta que na cidade dele um bêbado foi a um velório e ao saber que fora suicídio, perguntou alto e bom som qual o veneno usado.Constrangido e querendo acabar com aquela cena macabra, um parente disse baixinho que o suicida tomara o veneno folidol. O bêbado não se conteve: “- Mas que imbecil. Folidol até que é bom, mas não há nada que se compare ao bom e velho chumbinho”.

Marcos Pires
Do Blog do Tião

O destino da vida: A história por trás de Cajuína, de Caetano Veloso

Torquato, Caetano e Capinan
 
“Caetano havia chegado a Teresina para um show. Estava muito triste. Retornava pela primeira vez à cidade onde havia nascido um de seus principais parceiros na Tropicália e seu grande amigo, o poeta Torquato Neto, meu primo, que havia se suicidado em 1972”, escreveu o jornalista, poeta e escritor piauense Paulo José Cunha.

Foi a partir desse momento que começou a ser escrita a história das entrelinhas de Cajuína, música de Caetano Veloso gravada em 1979 para o disco Cinema Transcendental. Oito versos de um xote um tanto melancólico que se questiona sobre a efemeridade da vida, de belezas e mistérios.

A canção começou a ser composta por Caetano quando chegou a Teresina (PI) com a turnê Muito e recebeu no hotel a visita de Dr. Heli Nunes, o pai de Torquato. Aquela era a primeira vez que o encontrava após o trágico fim do amigo.

“Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental”, relembrou Caetano, que não havia chorado no momento em que recebeu a notícia da morte súbita de Torquato. Foi apenas ao se encontrar com Dr. Heli, anos depois do ocorrido, que sua “dureza amarga se desfez”, como traduziu o próprio Caetano.

Naquele momento de reencontro, Caetano derramou as lágrimas guardadas e foi consolado com grande ternura pelo pai de seu amigo. Dr. Heli o levou até sua casa e lá ficaram a sós (já que Dona Maria Salomé, mãe de Torquato, estava hospitalizada). Ele conta que não trocaram muitas palavras, mas contemplaram juntos as inúmeras fotografias de Torquato expostas pelas paredes da casa.
Dr. Heli, como se desejasse relembrar a beleza da vida, deu ao amigo de seu filho uma rosa-menina colhida diretamente do quintal; e também serviu cajuína, como se quisesse adocicar aquele instante. Caetano continuava a derramar lágrimas, mas não mais de tristeza ou amargura. “Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Heli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei”, simplificou Caetano.

E foi no dia seguinte, quando pegou a estrada, que Caetano escreveu Cajuína, expressando em palavras cantadas a complexidade e simplicidade de momentos que despertam sentimentos quase intraduzíveis.
  
O Anjo Torto

Em 1967, o Tropicalismo se firmava como movimento cultural e tinha como grande letrista Torquato Neto. Ele assinou importantes canções, como Geleia Real, Louvação, Marginalia 2, Mamãe Coragem e Deus vos Salve esta Casa Santa, fazendo parcerias com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo e Jards Macalé. No período pré-Tropicalista, também conheceu Chico Buarque de Holanda, de quem se tornou grande amigo.

Mas aqueles eram tempos difíceis para sonhadores. Fazer arte significava um ato de bravura e a censura tentava calar Torquato, que, além de letrista e poeta, também era jornalista, tendo assinado por muitos anos a coluna Música Popular, do jornal O Sol, e também a polêmica Geleia Real, publicada no Última Hora. Com a repressão, Torquato se afastou de tudo e todos e chegou a se internar voluntariamente por conta de sua instabilidade mental agravada.

Torquato Neto, conhecido como o Anjo Torto da Tropicália, cometeu suicídio no dia 10 de novembro de 1972, um dia após seu aniversário de 28 anos. Foi ainda na madrugada, após seus convidados terem deixado sua casa no Rio de Janeiro (RJ), que decidiu abrir as torneiras de gás de seu banheiro. Lá foi encontrado morto ao amanhecer, asfixiado.

Os jornais da época relataram que as últimas anotações encontradas em seu caderno de espiral traziam frases como Pra mim chega e O amor é imperdoável, esta última atribuída a Caetano Veloso. No livro Torquato Neto: uma poética de estilhaços, o escrito Paulo Andrade transcreveu a nota de suicídio assinada pelo poeta:
“FICO. Não consigo acompanhar a marcha do progresso de minha mulher ou sou uma grande múmia que só pensa em múmias mesmo vivas e lindas feito a minha mulher na sua louca disparada para o progresso. Tenho saudades como os cariocas do tempo em que eu me sentia e achava que era um guia de cegos. Depois começaram a ver, e, enquanto me contorcia de dores, o cacho de banana caía. De modo Q FICO sossegado por aqui mesmo enquanto dure. Ana é uma SANTA de véu e grinalda com um palhaço empacotado ao lado. Não acredito em amor de múmias, e é por isso que eu FICO e vou ficando por causa deste amor. Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar”.
Quanto a seu pai, Dr. Heli, faleceu em 2010, aos 92 anos de idade. Seu sepultamento foi realizado por Thiago Silva de Araújo Nunes, único filho do poeta piauiense com Ana Maria, esposa de Torquato citada na carta de despedida.

Confira aqui a íntegra do relato de Caetano sobre a composição e abaixo o trecho de sua participação no Programa Livre, onde também fala sobre a história por trás da música. E, por fim, a interpretação de Cajuína, em 1982 e 2012:



Por
Fernanda Mendonça

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sexta-feira, 17 de novembro de 2017


Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.