segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Nacional de Pombal vence e avança no Campenonato Paraibano da 2ª Divisão



O Nacional de Pombal entrou em campo na tarde de ontem (20.08), no Estádio Municipal “O Pereirão”, para  enfrentar a equipe do Femar da vizinha cidade de Teixeira-PB, jogo válido pelo Campeonato Paraibano da 2ª Divisão, chave do Sertão.


Sem nenhum ponto somado até então, o Camaleão foi escalado pelo Técnico Betão numa formação mais ofensiva variando ora num esquema 4-3-3, ora numa formação 4-2-4, sem, necessariamente ter um homem fixo de referência pelo meio. Manu se movimentava de forma a finalizar a jogada bem ainda a possibilitar a formação do pivô para quem vinha de trás.

Os laterais apoiaram e tiveram a cobertura eficiente do meio de contenção  e do miolo de zaga, que diga-se de passagem, atuou muito bem. 


Por sua vez, a equipe do Femar que também não tinha pontuado no Campeonato e precisava de um resultado positivo em Pombal. Começou a partida adotando uma marcação alta, no campo do Nacional. A atitude do adversário, embora ousada, revelou-se por demais  perigosa pois possibilitou inúmeras vezes o contra-ataque do Camelão. Eles aconteceram e foram fatais para a formação do resultado do Jogo:  Nacional 3 x 1 Femar.

O goleiro Danilo, após falhar feio no gol do Femar, se redimiu durante a partida fazendo duas defesas importantes. 


A equipe do Camaleão, embora tenha apresentado avanços táticos, ainda peca na formação da jogada  trabalhada  pelo meio. Foram inúmeras as vezes em que o goleiro Danilo buscava, num chutão direto, a presença dos atacante lá na frente.

O Nacional fez o seu dever de casa, somou 3 pontos e isso é importante e é o que vale, entretanto, parece-nos  relevante registrar que alguns jogadores ainda não alcançaram a sua plena condição física isso ficou claro no jogo  e precisa ser corrigido com a realização de trabalho físico especifico.


As triangulações, outrora ausentes, apareceram modestadamente no segundo tempo de jogo. 

É importante ressaltar ainda que falta a alguns atletas a compreensão que o futebol moderno é sobretudo coletivo. O jogador precisa entender que é mais importante ter uma boa leitura do jogo do que sair querendo driblar todo mundo até ser desarmado.  

Por fim, devo dizer que a torcida fez a sua parte. Compareceu em campo e apoiou a equipe o tempo todo.
Até um drone, nos céus, parecia dar tonalidade exata da importante vitória do Camaleão Verde do Sertão.

Agora, é partir para a próxima batalha, de preferência, com outra vitória.

Teófilo Júnior 


Definição sobre boato

Ora, um boato é uma espécie de enjeitadinho que aparece à soleira duma porta, num canto de muro ou mesmo no meio duma rua ou duma calçada, ali abandonado não se sabe por quem; em suma, um recém-nascido de genitores ignorados. Um popular acha-o engraçadinho ou monstruoso, toma-o nos braços, nina-o, passa-o depois ao primeiro conhecido que encontra, o qual por sua vez entrega o inocente ao cuidado de outro ou de outros, e assim o bastardinho vai sendo amamentado de seio em seio ou, melhor, de imaginação em imaginação, e em poucos minutos cresce, fica adulto - tão substancial e dramático é o leite da fantasia popular - começa a caminhar pelas próprias pernas, a falar com a própria voz e, perdida a inocência, a pensar com a própria cabeça desvairada, e há um momento em que se transforma num gigante, maior que os mais altos edifícios da cidade, causando temores e às vezes até pânico entre a população, apavorando até mesmo aquele que inadvertidamente o gerou. 
 

Ivete canta Roberto

Charge


Idealização da Humanidade

Futura Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
— Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!–
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam!No húmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais! 
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão... 
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação


Augusto dos Anjos 

domingo, 20 de agosto de 2017


Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.


Manoel de Barros 
João Carlos Pecci
O poeta pode contar ou cantar as coisas, não como foram mas como deviam ser; e o historiador há-de escrevê-las, não como deviam ser e sim como foram, sem acrescentar ou tirar nada à verdade.

Miguel de Cervantes

A vida é sonho

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.  


Calderón de la Barca

Uma nação só vive porque pensa

Uma nação só vive porque pensa. Cogitat ergo est. A força e a riqueza não bastam para provar que uma nação vive duma vida que mereça ser glorificada na História - como rijos músculos num corpo e ouro farto numa bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino de África, com guerreiros incontáveis nas suas aringas e incontáveis diamantes nas suas colinas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civilização, os civilizados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rês bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egipto ou Tunis formassem resplandescentes centros de ciências, de literaturas e de artes, e, através de uma serena legião de homens geniais, incessantemente educassem o mundo - nenhuma nação mesmo nesta idade do ferro e de força, ousaria ocupar como um campo maninho e sem dono esses solos augustos donde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das ideias e das formas. 

Só na verdade o pensamento e a sua criação suprema, a ciência, a literatura, as artes, dão grandeza aos Povos, atraem para eles universal reverência e carinho, e, formando dentro deles o tesouro de verdades e de belezas que o Mundo precisa, os tornam perante o Mundo sacrossantos. Que diferença há, realmente, entre Paris e Chicago? São duas palpitantes e produtivas cidades - onde os palácios, as instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque forma pois Paris um foco crepitante de Civilização que irresistivelmente fascina a Humanidade - e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um rude e formidável celeiro onde se procura a farinha e o grão? 

Porque Paris, além dos palácios, das instituições e das riquezas de que Chicago também justamente se gloria, possui a mais um grupo especial de homens -Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguières, Gounot, Massenet - que pela incessante produção do seu cérebro convertem a banal cidade que habitam num centro de soberano ensino. Se as Origens do Cristianismo, o Fausto, as telas de Bonnat, os mármores de Falguières, nos viessem de além dos mares, da nova e monumental Chicago - para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas para o Sol, os espíritos e os corações da Terra. 

Se uma nação, portanto, só tem a superioridade porque tem pensamento, todo aquele que venha revelar na nossa pátria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe aumentar a única grandeza que a tornará respeitada, a única beleza que a tornará amada; - e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrário ou sobre as suas muralhas erguesse mais um castelo.

Eça de Queirós, in 'A Correspondência de Fradique Mendes'

*Mantida a grafia original 

Quem ama inventa

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!


Mário Quintana
Quem gosta de escrever cartas para os jornais não deve ter namorada.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 19 de agosto de 2017


Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz...

Machado de Assis

Melhor parte de mim

Sou forte.
 Meio doce e meio ácida.
Em alguns dias acho que sou fraca. 
E boba. 
Preciso de um lugar
 onde enfiar a cara pra esconder as lágrimas.
Aí penso que não sou tão forte assim 
e começo a olhar pra mim. 
Sou forte sim, mas também choro. 
Sou gente. 
Sou humana. 
Sou manhosa. 
Sou assim. 
Quero que as coisas aconteçam já, 
logo, de uma vez. 
Quero que meus erros
 não me impeçam de continuar olhando para a frente. 
E quero continuar errando, 
pois jamais serei perfeita (ainda bem!). 
Tampouco quero ser comum e normal. 
Quero ser simplesmente eu. 
Quero rir, sorrir e chorar. 
Sentir friozinho na barriga,
 nó no peito, tremedeira nas pernas. 
Sentir que as coisas funcionam
 e que tenho que trocar de jeito 
quando insisto em algo que não dá resultado. 
Quero aprender e, ainda assim, continuar criança.
 Ficar no sol e sentir o vento gelado no nariz. 
Quero sentir cheiro de grama cortada 
e café passado. 
Cheiro de chuva, de flor, cheiro de vida. 
Aprecio as coisas simples 
e quero continuar descomplicando 
o que parece complicado. 
Se der pra resolver, vamos lá! 
Se não dá, deixa pra lá. 
A vida não é complicada e nem difícil, 
tudo depende de como a gente encara e se impõe.
 Quero ser eu, 
com minha cara azeda 
e absurdamente açucarada. 
Não quero saber tudo e nem ser racional. 
Quero continuar mantendo o meu cérebro no lugar 
onde ele se encontra: 
meu coração. 
E essa é a melhor parte de mim.
 
Clarissa Corrêa

A nobreza obriga

(Rudyard Kipling)

Um poema de Bertolt Brecht (“A Lenda da Origem do Livro do Tao-Te-King, de Lao-Tsé”) conta como surgiu o Tao Te King, ou Livro do Caminho Perfeito, o mais enigmático e mais interessante livro da filosofia oriental.

Brecht relata que aos 70 anos Lao-Tsé pretendia se aposentar, aí empacotou suas coisas, montou num boi (costume chinês) guiado por um rapazinho, e partiu. Ao chegar na fronteira um guarda da alfândega perguntou quem era ele, para onde ia. O rapaz explicou. O guarda bateu um papo com o filósofo, achou interessantes as coisas que ele disse, aí propôs: “Eu deixo o senhor passar, se o senhor escrever essas coisas. Vai que depois o senhor morre, ou não volta mais...”

Durante sete dias Lao-Tsé ficou hospedado na cabana do guarda, escrevendo. Ao partir (para sempre), deixou para trás um manuscrito: o “Tao Te King”.

Num poema de Rudyard Kipling (“A Ponte de Akbar”) o Rei da Índia (ou coisa equivalente), Muhammed Akbar, encarrega seu Vice-Rei de construir a mais bela mesquita do mundo, e vai para a cidade de Jaunpore para supervisionar a construção.

Uma noite, ele vai passear disfarçado na beira do rio (como faziam os califas das Mil e Uma Noites, para saber o que o povo dizia de seu governo), quando vê uma mulher junto a um barco, praguejando contra o barqueiro ausente. É a Viúva do Poteiro, uma figura folclórica local. O Rei se oferece para levá-la ao outro lado do rio, remando.

O Rei começa a remar, e a mulher esculhamba com ele o tempo todo: “Já não basta meu atraso e o barqueiro não aparecer, quem aparece é um jumento como esse, que nem remar sabe!” O Rei na dele, calado.


 O Rei a deixa sã e salva do outro lado, e ao tentar abraçá-la em despedida leva uma sapatada na cara, pelo desaforo. Volta ao Palácio, chama o Vice-Rei e diz: “Suspende a mesquita, e constrói uma ponte, pra ver se aquela bruxa sossega.” A Ponte está lá, até hoje.


O guarda-da-fronteira e a viúva são parceiros no livro e na ponte. Um sujeito sábio não tem medo de escutar os outros, e um sujeito poderoso não tem medo de admitir que cometeu um erro. Um filósofo não é apenas um cara que tem boas idéias, ele sabe reconhecer uma boa idéia alheia.

“Noblesse oblige”. A nobreza obriga a tratar nobremente os que não são nobres, por compreender que nem todos o são. Ouvir com atenção os conselhos dos iletrados, e tratar os mal-educados com cortesia. Nobre é um sujeito, rico ou pobre, que impõe a si mesmo um padrão elevado, e procura puxar para esse nível de comportamento ele mesmo e todas as outras pessoas com quem se relaciona.

Ser nobre não é ser superior, é reconhecer que existe um modo superior de ser, e que todos, sem exceção, devem se esforçar para ser assim. 

Bráulio Tavares