quinta-feira, 27 de julho de 2017

Os homens distinguem-se entre si também neste caso: alguns primeiro pensam, depois falam e, em seguida, agem; outros, ao contrário, primeiro falam, depois agem e, por fim, pensam.

Leon Tolstói

Sobre os nomes das pessoas...

Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo.

Luis Fernando Verissimo
Para evitar críticas, não faça nada, não diga nada, não seja nada.

Elbert Hubbard

A coragem de ser diferente

Era dia de Ano novo. Eu me levantei cedo, bem cedo, mas não pude sair logo para passear com o cachorro, pois, lá fora, a festa ainda corria solta. Somente às 10 da manhã pararam de soltar fogos e pude sair, se bem que até depois do meio-dia alguns renitentes continuavam soltando um ou outro foguete, como se as toneladas de pólvora já queimadas na madrugada não tivessem bastado. As ruas estavam cheias de lixo, muito lixo, resíduos de uma alegria curta, que se acendeu, subiu, explodiu e se apagou rapidamente. O que mais me incomodava eram as garrafas quebradas em todo e qualquer canto, testemunhas da insanidade da festa. Prestava atenção para não pisar em cacos de vidros, mas minha preocupação maior era com meu amigo de quatro patas sem sapatos.

Continuamos o passeio no meio de tanto lixo e insanidade, cruzamos o caminho de pessoas com ressaca e mau humor e fiquei questionando que sentido faria tudo aquilo. Comemoramos a virada do ano todos os anos, ficamos alegres pelo novo ano que chega, mas alegres exatamente por quê? Basta ser honesto, olhar para trás, ver todas as viradas de ano anteriores e constatar que nada muda, só continua, não há renovação, não há recomeço, o saldo no banco fica o mesmo, as dívidas também (ou mais altas, depois de tantos gastos com as festas de fim de ano), a saúde fica do mesmo jeito (ou mais abalada pelo alto consumo de álcool, comida e de tudo), os falsos amigos não se tornam verdadeiros, a obesidade só aumenta e tudo prossegue como sempre.

O mundo está aí, passando por uma enorme crise, com o maior número de migrantes desde a segunda guerra mundial, um verdadeiro êxodo, pessoas que fogem de guerras, de violência, de tortura, de fanáticos religiosos, de seca, de fome, de perseguição política, e muitos desses migrantes estão morrendo afogados ao tentar atravessar o Mar Mediterrâneo para entrar no Eldorado Europa, outros são vítimas de bandidos, traficantes de órgãos ou de gente, sendo mortos ou escravizados por aí. Quando chegam na Europa, se veem diante de arame farpado, racismo e xenofobia. A extrema-direita ganha terreno em todo o mundo. Ebola ainda mata na África, malária e AIDS também, sem falar do Zika e muitas outras epidemias que afetam a humanidade. O mundo se aquece, os oceanos são cada vez mais poluídos com nosso lixo, o consumismo nunca foi tão selvagem, com trabalho escravo, também infantil, para nos garantir roupas baratas, ou smartphones, ou seja lá o que for… No fundo, não há nada para comemorar, mas comemoramos assim mesmo.

Não vejo sentido, mas respeito, respeito porque somos todos livres para seguir o caminho que escolhermos, porque é direito de cada um de já ir com a massa para o Réveillon na praia de Copacabana já pela tarde, para garantir o melhor lugar, para fazer parte bem na frente, e ficar ali plantado por horas, esperando, como se isso tivesse realmente alguma importância. Respeito o direito de quem queima literalmente dinheiro para soltar fogos em abundância ou com fantasias de carnaval ou com ovos de chocolate na Páscoa ou com qualquer outra superficialidade, mesmo que eu não concorde, mesmo achando que isso não é justo diante do número de pessoas famintas no mundo. Respeito que cada um siga o caminho que desejar, por mais incompreensível que seja, mesmo percebendo que há pouca reflexão, que muitos vão por ir, Marias vão com as outras, que comemoram algo porque todo mundo comemora, sem cogitarem alternativas, sem terem a coragem de ser diferente, e talvez sem nem mesmo terem entendido que isso é possível.

E aqui chego ao ponto que queria chegar, ao tema que quero abordar: o direito que cada um tem de ser diferente, de não caminhar com o rebanho, de viver da forma que escolheu conscientemente, sem seguir convenções, sem fazer o que esperam os outros, de ser realmente livre. Toco nesse assunto por achar emergente, já que percebo um desvio, já que constato uma injustiça, vendo gente que tem a coragem de ser diferente sendo acuada, agredida por aqueles que acham que devemos todos nos comportar como gado, seguindo a massa sem qualquer senso crítico, sem qualquer reflexão.

Estava em um grupo no Facebook, quando li um post de um de homem que estava preocupado com sua comemoração de Ano Novo: <>. Algo normal, compreensível, já que essa pessoa tem o direito de correr atrás de festa. Mas aí alguém respondeu, uma mulher, dando alguma dica, mas dizendo que ela não iria, pois preferia passar a virada de ano em casa, com seus filhos. Estranhei então a reação do “festeiro”: <>.

E a coitada da mulher se sentiu desconsertada, começando a explicar sua postura e sua decisão, como se fosse uma ré, a acusada em um processo penal, como se estivesse agindo errado, como se ela simplesmente não tivesse o direito de dizer que não quer comemorar essa maluquice e pronto. E li em outros lugares comentários semelhantes: quem quer ficar em casa, quem se afasta da “loucura” coletiva é taxado de solitário, esquisito, triste, deprimido, frustrado, arrogante, metido a besta e um monte de outros adjetivos, rapidamente atribuídos por gente que não reconhece o direito de alguém ser diferente, de nadar contra a maré, de não seguir os outros cegamente.

 E é exatamente isso que acho injusto: como se não bastasse ter que suportar uma insanidade coletiva, um exagero festivo sem pé e sem cabeça, não gostando, temos ainda que nos sentir mal por pensarmos diferente? Ser diferente, viver diferente é então sinônimo de tristeza, de frustração, de arrogância? Parece-me que aqui a maioria atropela uma minoria, fazendo com que gente diferente se sinta mal, fazendo com que originalidade e independência virem motivos de chacotas, onde pessoas corajosas, que têm o peito de pensar e agir diferente e que merecem admiração, terminem se sentindo agredidas, empurradas em um canto, onde têm então que assumir uma postura defensiva desgastante.Vejo um desvio, uma inversão de papéis e valores. Não acho isso justo e penso que deveríamos refletir profundamente sobre o assunto.

Termino fechando esse texto com dois apelos, sendo a primeiro para aqueles que não toleram os que são diferentes, que acham que todos temos que seguir cegamente o rebanho, as tradições, as convenções, tudo aquilo que nos foi ensinado como certo, ou que simplesmente acreditamos ser certo por nunca termos feito de outra maneira: viva sua vida da forma que achar que deve, você é livre para isso. E se você acha que encontrará sua felicidade no coletivo, no modismo, no mainstream, no consumo exagerado, no correr atrás sem nunca (ou quase nunca) questionar, faça isso. Esse é um direito seu! Pessoalmente não acredito que você será feliz, mas não sei bem, já que não há receita para a felicidade. Pode ser que você esteja certo em seu caminho e eu errado em minha opinião. Mas, por favor, não tente fazer com que aqueles que têm a coragem de ser diferentes e seguir o próprio caminho se sintam como se eles fossem os “loucos”, pois isso não é assim. Não é loucura caminhar com as próprias pernas. Loucura é se deixar levar pelo “rebanho”, sem nunca questionar o percurso.

Já o segundo apelo é para os corajosos, para você, que tem o peito de ser diferente, de pensar com própria cabeça e seguir o próprio coração: continue assim! Isso é bom, muito bom! Sei que nem sempre é fácil, sem que isso muitas vezes faz com nos sintamos sós, mas não mude esse jeito jamais, pois é ele que faz de você aquilo que você realmente é: uma pessoas singular e realmente especial. Não é triste ter a coragem de optar por passar o ano novo ou outras festividades em casa, tranquilo, sem grandes pândegas e balangandãs. Triste é ter perdido essa capacidade. Assuma seu direito de ser diferente, de não caminhar com o rebanho, de viver da forma que escolheu conscientemente, sem seguir convenções, sem fazer o que esperam os outros, de ser realmente livre e feliz.

Blogueiro brasileiro residente em Berlim.

Sobre a prepotência



É bastante conhecida a passagem da Odisseia de Homero em que Ulisses encontra as sereias e, desejando ouvi-las sem enlouquecer, faz-se amarrar ao mastro do navio em que viaja, não sem antes alertar seus remadores para que tapem os ouvidos com cera e possam, deste modo, continuar a travessia normalmente. Esta história encanta muita gente há muito tempo, mas foi apenas Kafka quem percebeu a ingenuidade de Ulisses, a de acreditar que o poder do canto das sereias poderia ser contido por cera e cordas.

Ao perceber isso, Kafka diz que há algo mais terrível do que o canto das sereias. Segundo ele, se alguém pudesse escapar ao canto das divindades telúricas, todavia não poderia escapar ao seu silêncio…

No conto de Kafka, Ulisses acreditou que as escutava. Mas as sereias não cantaram. E não cantaram porque Ulisses lhes pareceu um sujeito meio bobo com toda aquela parafernalha usada para proteger-se do seu canto.

Para entender Kafka, poderíamos nos perguntar mais ou menos assim: como pode alguém que vai ver e ouvir as sereias – justamente as SEREIAS – estar preocupado com outra coisa que não a experiência da coisa enquanto tal, uma coisa absurda como ouvir SEREIAS? Não se trata de música que se ouve no rádio, nem de nada que se possa baixar na internet pra ouvir com fones. Trata-se, afinal, do mítico canto das sereias. Convenhamos que não é pouca coisa, pensemos como Kafka. A verdadeira experiência de arrebatamento com a qual um ser humano sonha e da qual está impedido por limitações humanas, ali, finalmente realizável. E Ulisses? Ora, Ulisses quase chegou lá, mas preferiu menos, não porque quisesse permanecer humano (afinal, esse problema não era o seu), mas porque já estava com a consciência instrumentalizada.

Apesar da ingenuidade de Ulisses, as sereias gostariam de tê-lo capturado. Se não os ouvidos, pelo menos os olhos do herói astucioso. Mas os olhos de Ulisses não se dirigiam a elas. Não se dirigiam às forças temíveis da natureza que desejariam justamente aniquilar olhos em geral. Os olhos de quem se dispusesse a vê-las. Os olhos da cultura, digamos assim. Ora, o poder dos seres míticos seria o de subjugar os seres racionais, o poder dos seres divinos deveria suplantar o poder humano. Seria lógico que Ulisses se submetesse a elas. Mas os olhos de Ulisses eram olhos distraídos, estavam atentos demais às estratégias para vencer as sereias e, mesmo assim, eram olhos (e ouvidos, não esqueçamos) que queriam “curtir”. Aqueles olhos e aqueles ouvidos precisavam ser capturados pelo canto e pela imagem das sereias, do contrário seria o fim das sereias. Mas Ulisses não podia dar o braço a torcer e dizer que encontrou com o seu silêncio.

Por sorte, tudo acabou bem. Ulisses fingiu que ouvia e foi embora. E alguma coisa ele viu. As bocas perplexas. As sereias, sem entender como era possível que alguém não se desse conta do que acontecia naquele momento, continuaram existindo apesar de Ulisses quase as ter destruído com sua boçalidade.

Kafka termina o conto sem dar uma de Ulisses, ou seja, combatendo a tentação de prepotência que caracteriza o protagonista homérico, afirmando que talvez Ulisses tenha percebido tudo isso e tenha escapado das sereias, do seu poder terrível e destrutivo, o poder da sedução (mas não só, o poder do misterioso que é viver), justamente controlando esse jogo de aparências, fingindo que tinha entendido tudo. Ulisses era um espertinho, as sereias sabiam que não, mas Kafka, que era um homem decente, apenas nos põe a desconfiar e deixa tudo no tom do “quem vai saber?”.

Há um momento do texto em que se pode reconhecer o poder da prepotência de Ulisses que quase destruiu as sereias: “Contra o sentimento de tê-las vencido com as próprias forças e contra a altivez daí resultante – que tudo arrasta consigo – não há na terra o que resista.”

Essa força, a da crença de que se venceu as sereias, não tem comparação. Ela destrói tudo. Mas que poder de destruição é esse que seria capaz de eliminar logo as  sereias se elas estivesses desprotegidas? Lembremos que as sereias estavam protegidas por serem inconscientes e permanecerem na eternidade, apenas que ficaram meio perplexas com o jogo humano…

A condição humana sob o signo do capitalismo tecnológico nos tornou cada vez mais parecidos com Ulisses, o boçal. Ulisses que Adorno e Horkheimer chamaram de “protótipo do indivíduo burguês” não é mais do que o turista que usa câmera de fotografar e filmar quando teria a chance de entregar-se à viagem; é o pai que filma o parto enquanto a criança se ocupa em nascer e a mãe torna-se um objeto decorativo no filme bizarro; é, por fim, o dono do celular último-tipo que deixa de conversar com os filhos, o amigo, a mulher, porque há coisa muito mais interessante para ver no mundo virtual além da mesa do restaurante…

Lembro que dizíamos: aponta-se a estrela e ele olha para o dedo…

Eis Ulisses, olhando para o dedo com o qual tecla o celular enquanto as sereias resolvem dormir…

O conto de Kafka nos aponta para a prepotência da inteligência de Ulisses que, na época só tinha em mãos, corda e cera. Hoje, na era tecnológica, com os aparelhos impressionantes que temos, somos todos Ulisses em estado avançado de putrefação espiritual. Perdemos de ouvir o canto das sereias porque nossos olhos distraídos são de vidro, plasma, LCD, LED, ou outro material que empolga os tontos no contexto da ideologia da alta resolução. Evolução direta da cera e da cordinha que amarrava Ulisses ao mastro fazendo ele se sentir inteligente.

Viver, mais uma vez, deve ser algo parecido com “resistir” a essas bugigangas. Resistir certamente nos fará ouvir o silêncio das sereias.

Márcia Tiburi
Publicado originalmente na Revista Cult

Palavras para a Minha Mãe



Mãe, tenho pena. Esperei sempre que entendesses as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz. Sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente. Pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente. 

Às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo, a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz. Lê isto: mãe, amo-te. 

Eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes. 

José Luís Peixoto